Antonio Souto
Bem-vindo(a) ao jardim das palavras, onde a alma floresce em versos.
Textos

Dois Universos se Tocam

Anne era uma mulher de olhar curioso, como quem carrega dentro dos olhos uma bússola apontando sempre para o desconhecido. Ônio, ao contrário, era feito de rotinas: levantava-se à mesma hora, tomava o café do mesmo modo, lia os mesmos autores. Viviam em mundos que pareciam inconciliáveis

, até o dia em que o acaso, esse grande maestro das travessias humanas, decidiu cruzar seus caminhos numa estação de trem.

Anne observava o vaivém apressado das pessoas quando notou Ônio sentado num banco, com um livro aberto e um ar de quem esperava algo que nunca chegava. Havia nele uma quietude que intrigava. Aproximou-se com naturalidade e perguntou, sem cerimônia:

— O que você lê que te prende tanto?

Ônio levantou os olhos, surpreso.
— “O homem e o infinito”, respondeu.
— Mas acho que estou relendo a mim mesmo.

Anne sorriu, como quem reconhece um sinal do destino.
— Então estamos fazendo a mesma viagem, só que em trilhos diferentes.

E foi assim que começaram a conversar.

Nos dias seguintes, encontraram-se novamente , às vezes por acaso, às vezes de propósito. Anne falava do mar, das cores, dos lugares que sonhava visitar. Ônio, em troca, mostrava-lhe o encanto das pequenas repetições, da disciplina que fazia florescer o pensamento. A cada encontro, um universo visitava o outro. Ela, caótica e solar, o fazia rir de si mesmo; ele, sereno e profundo, ensinava-lhe o valor do silêncio.

Certa tarde, Anne o convidou para caminhar à beira do rio. O vento soprava como um mensageiro de mudanças.
— Você nunca quis sair daqui? 
Perguntou ela. Ônio hesitou.
— Eu sempre temi o que não posso controlar.
— Mas é justamente aí que a vida acontece! Fora das linhas, fora dos mapas.

Naquela noite, Ônio sonhou com estrelas que giravam dentro de si, como se um novo cosmos estivesse nascendo em seu peito. Percebeu que Anne havia deixado rastros luminosos em seu universo, e que o simples fato de tê-la conhecido o tornava outro homem , um homem em expansão.

Sem dizer nada, no dia seguinte, ele apareceu na estação com uma mala pequena.
— Para onde vamos? — perguntou, quase num sussurro.
Anne sorriu. — Para onde o trem decidir.

E partiram.

Enquanto o trem cortava paisagens e o sol se dissolvia nas janelas, Anne percebeu que também não era mais a mesma. A travessia que imaginara fazer em Ônio era, na verdade, um espelho: ela também havia sido atravessada.

Porque, afinal, todo encontro verdadeiro é uma viagem de volta a si mesmo, e Anne e Ônio, sem saber, haviam se tornado dois universos que aprenderam a orbitar em harmonia, respeitando o mistério que um representava para o outro.

No fim, não importava o destino do trem.
O essencial era a travessia.

 

 

Antonio Souto
Enviado por Antonio Souto em 04/07/2025
Alterado em 21/10/2025
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