Há pessoas que passam pela vida colecionando datas. Outras colecionam histórias. Eu pertenço ao segundo grupo. Se hoje escrevo contos, poemas, peças teatrais e canções, é porque descobri, muito cedo, que as palavras têm o poder de transformar pessoas, preservar memórias e dar sentido até mesmo às dores que pareciam impossíveis de suportar.
Nasci no Rio de Janeiro e vim ao mundo em Niterói, no Hospital São Lucas. Filho de Augusta e Júlio, cresci ao lado dos meus irmãos, Terezinha e Artur, em um lar onde o amor, a fé e a gratidão a Deus sempre ocuparam um lugar central. Foi nesse ambiente simples que aprendi as primeiras lições sobre a vida e, sem perceber, comecei a construir o olhar que mais tarde daria origem aos meus textos.
A vida me presenteou com grandes amores. Fui casado duas vezes. Com a minha primeira esposa, o amor mudou de forma, mas nunca se transformou em ausência. Permaneceram o respeito, a amizade e, sobretudo, o maior legado que construímos juntos: nossos filhos, Flávia e André Luiz. Eles escreveram suas próprias histórias e me deram quatro netos: Lucas, Bárbara, Daniel e Leonardo. Sempre que olho para eles, tenho a certeza de que a vida consegue escrever capítulos mais belos do que qualquer escritor.
O segundo casamento foi um daqueles acontecimentos que parecem desafiar o tempo. Encontrei novamente o amor da adolescência, como se a vida tivesse decidido devolver aquilo que um dia havia interrompido. Nossa relação era intensa, cheia de cumplicidade e sonhos compartilhados. Juntos escrevíamos canções: eu transformava sentimentos em versos, e ela lhes dava melodia. Era uma parceria rara, construída com afeto, arte e espiritualidade. Mas a vida, às vezes, muda o roteiro sem pedir licença.
Ela partiu cedo demais, deixando o filho, Salomão, a neta do coração, Rebeca, e um legado de fé que continua iluminando meus dias. Desde então, aprendi que certos amores não terminam; apenas deixam de ocupar o mesmo espaço que nós. Permanecem vivos na memória, na saudade e nas marcas que deixam em nossa existência.
A vida, porém, ainda reservava um novo capítulo, pois hoje vivo meu terceiro relacionamento. Ao meu lado está uma pessoa muito especial, que chegou sem fazer promessas grandiosas, mas transformando meu cotidiano com pequenos gestos, conversas e exemplos. Mais do que compartilhar a vida comigo, ela me ensina, todos os dias, muito daquilo que eu sempre desejei ser.
Se eu sempre fui movido pela emoção, ela me apresenta o valor da razão. Com serenidade, equilíbrio e sabedoria, complementa uma racionalidade que nunca aprendi a desenvolver plenamente. Não tenta mudar quem sou; ajuda-me a enxergar o mundo por perspectivas que antes me escapavam. Descobri que amar também é aprender, crescer e permitir que o outro revele em nós virtudes que ainda estavam adormecidas.
Hoje compreendo que os grandes encontros da vida não acontecem apenas para nos fazer felizes. Eles também nos tornam pessoas melhores. E sou profundamente grato por viver este novo tempo ao lado de alguém que, diariamente, me ajuda, torce por mim e me inspira a evoluir como homem, como escritor e como ser humano.
Muito antes dessas experiências, porém, existia apenas um menino tímido e um caderno trancado a cadeado. Eu escrevia escondido. Inventava histórias, fazia rimas, criava personagens e amassava folhas sempre que acreditava que nada daquilo tinha valor. Não conservo aqueles primeiros textos, mas nunca perdi a sensação que eles despertavam. Escrever era meu modo silencioso de respirar.
Em 1975, um acontecimento aparentemente simples mudou o rumo da minha vida. Minha irmã participava de uma gincana escolar e precisava apresentar uma peça teatral. Pediu que eu escrevesse o texto. Nunca havia escrito teatro. Rabisquei ideias, recomecei inúmeras vezes, joguei páginas na lixeira e quase desisti. Foi justamente entre papéis amassados que nasceu "O Aniversário da Princesinha Papelote".
Naquele momento descobri que as palavras não nasceram para permanecer imóveis sobre o papel. Elas querem ganhar voz, movimento, emoção. Querem alcançar outras pessoas. Como se isso não bastasse, minha irmã ainda fez outro pedido: eu deveria atuar na própria peça. Pela primeira vez, deixei de ser apenas o autor escondido atrás da cortina para me tornar parte da história que havia criado.
No dia da apresentação, subi ao palco com o coração acelerado. Não era apenas nervosismo. Era como se eu estivesse revelando ao público um pedaço secreto da minha alma. Cada frase que eu havia escrito parecia atravessar primeiro o meu peito antes de ganhar voz e alcançar quem estava diante de mim. Quando as pessoas riram, senti um enorme alívio. Minhas palavras haviam encontrado abrigo.
Quando algumas pessoas se emocionaram, compreendi uma verdade que nunca mais esqueci: depois que uma história encontra um leitor ou um espectador, ela deixa de pertencer apenas ao autor. Naquele palco, vivi minha verdadeira estreia como protagonista daquilo que eu mesmo havia escrito.
Ao final da apresentação, os aplausos ecoaram pelo teatro e trouxeram uma satisfação impossível de descrever. Naquele instante, percebi que não era o reconhecimento em si que mais me encantava, mas a transformação que uma história era capaz de provocar. Vi o brilho nos olhos das crianças, a magia de um cenário simples e a força que um texto pode exercer quando ganha voz, emoção e vida diante do público. Foi ali que compreendi que escrever não é apenas criar histórias; é tocar pessoas. Eu compreendi que escrever não é apenas juntar palavras. Escrever é dar existência ao invisível.
Depois vieram outras quinze peças teatrais, muitas delas destinadas ao público infantil. Cada personagem carregava um pouco daquele menino que ainda acreditava que a imaginação podia tornar o mundo um lugar melhor.
Em 1994, fundei a Fluarte. O teatro deixou de ser apenas texto para tornar-se luz, cenário, música, voz e encontro. Ver histórias ganhando vida diante do público fortaleceu ainda mais minha certeza de que escrever era mais do que um talento: era uma missão.
Durante muitos anos, entretanto, meus poemas permaneceram guardados. Eram íntimos demais, pensava. Até que uma amiga, Marina, fez uma pergunta que mudaria novamente meu caminho.
— Você nunca vai publicar?
Respondi que não. Aqueles textos pertenciam somente a mim. Ela sorriu e respondeu:
— Seus textos podem ser exatamente o que alguém precisa ler.
Aquela frase nunca mais saiu da minha memória. Foi então que compreendi que uma palavra guardada é como uma semente esquecida dentro de uma gaveta. Ela possui vida, mas nunca florescerá enquanto não encontrar terra. Desde então, passei a publicar meus poemas no Recanto das Letras e no Meu Lado Poético. Mais tarde, lancei meu primeiro livro, "Te Encontrei", uma obra que reúne poemas e narrativas inspirados em uma história de amor que marcou profundamente minha vida.
Ao olhar para trás, percebo que minha trajetória nunca foi construída apenas por datas ou acontecimentos marcantes. Ela foi sendo escrita pelos encontros que transformaram minha vida e pelas despedidas que me ensinaram a seguir em frente. Foi moldada pela família que me formou, pelos amigos que acreditaram em mim, pelas perdas que fortaleceram minha esperança, pela fé que jamais me abandonou e, acima de tudo, pelo teatro que deu voz aos meus textos.
Os textos que encontrará a seguir não nasceram apenas da imaginação. Eles foram tecidos a partir das minhas observações sobre a vida e sobre as pessoas. Em cada conto, poema ou narrativa há um pouco dos amigos que cruzaram meu caminho, dos vizinhos que compartilharam momentos comigo, dos parentes que marcaram minha história e da infinidade de anônimos que, sem saber, também se tornaram personagens da minha memória.
Cada encontro, cada conversa, cada gesto de bondade, cada conflito, cada perda e cada recomeço deixaram marcas que, com o tempo, transformaram-se em palavras. Algumas histórias nasceram de fatos reais; outras ganharam novos contornos pela imaginação. Mas todas carregam emoções verdadeiras, porque foram inspiradas naquilo que vivi, presenciei ou senti.
Se, ao longo destas páginas, você encontrar um personagem que lhe pareça familiar, uma situação que desperte lembranças ou uma emoção que também já habitou o seu coração, então meu trabalho terá cumprido seu propósito. Afinal, as melhores histórias são aquelas em que, de alguma forma, acabamos encontrando um pouco de nós mesmos.